Candidato do Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal de Lagoa, Jorge Ramos, de 50 anos e engenheiro de telecomunicações em Portimão, acusa o executivo autárquico de “falta de respeito” para com os cidadãos em face da dívida de quatro milhões de euros à empresa Águas do Algarve, calcula que haja mais de 1.500 desempregados no concelho e sugere obras de requalificação das escolas e de infraestruturas básicas, entre outras, para reduzir o número de pessoas sem trabalho.
Nesta entrevista concedida ao «barlavento», Jorge Ramos, natural da Beira - Moçambique, casado, pai de um filho e residente na localidade do Parchal, naquele concelho algarvio, onde ocupa o cargo de vogal da Assembleia de Freguesia, além ser coordenador do Bloco de Esquerda, perspetiva que a estação dos CTT´s de Ferragudo “vai mesmo fechar” e aposta na dinamização da agricultura para escoar produtos através das grandes superfícies comerciais, além mais feiras tipo Fatacil.
Benfiquista, dedica-se à família, gosta de passear, ouvir música, conviver com amigos e procura estar informado em termos políticos, bem como sobre regulamentos municipais e do Estado. Na disputa eleitoral que se aproxima, aposta numa gestão camarária “transparente”, garantindo canalizar uma percentagem do orçamento para projetos definidos pela própria população. Mas também promete desempenhar de forma ativa um papel como vereador da câmara lagoense se for eleito para essas funções, com a apresentação de ideias e propostas, considerando que o “exercício da política não é forma de glória, não é uma feira de vaidades”.
barlavento - O que o faz candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Lagoa? E qual é a sua perspetiva em termos eleitorais?
Jorge Ramos - Lancei-me por iniciativa própria nesta candidatura que tem como objetivo contribuir para a melhoria da qualidade de vida dos lagoenses, minimizando as dificuldades por eles sentidas. O Bloco de Esquerda coloca as pessoas sempre em primeiro lugar. É um partido que defende o interesse público, dá prioridade à resolução dos problemas dos cidadãos com rigor, transparência e democracia. Quanto às perspetivas, vamos esperar pelos resultados do ato eleitoral. Até essa altura, continuaremos a trabalhar como temos feito nestes últimos anos para merecer a confiança dos lagoenses.
b- Como avalia a gestão camarária presidida pelo social-democrata José Inácio Marques?
J.R. - Trata-se de uma Câmara que tem atualmente a sua dívida controlada e baixa em relação a outros municípios. É uma dívida de cerca de seis milhões de euros. Todavia, aderiu ao Programa de Apoio à Economia Local (PAEL) solicitando quatro milhões de euros para pagar à empresa Águas do Algarve. No último ano, a Câmara amortizou e liquidou parte da sua dívida com os fornecedores, talvez por estar em vésperas de ano de eleições. Não concordo e acho uma falta de respeito pelos munícipes a dívida existente com a Águas do Algarve, pois a autarquia recebe da população receitas da venda da água. E caso as pessoas se atrasem no pagamento, ficam sujeitas a um acréscimo que, por vezes, é tanto como o valor inicial da fatura. A dívida à empresa Águas do Algarve ficou a dever-se a má gestão ao ser canalizado para outras obras e eventos o dinheiro das receitas proveniente das faturas da água por parte dos moradores e empresas do concelho de Lagoa.
Por outro lado, o nível de equipamentos e sua manutenção está muito abaixo do necessário. Como exemplo, a Câmara poderia ter melhorado as infraestruturas de condução de águas, tubagens, o que permitiria uma melhor qualidade da água nas torneiras dos munícipes e melhorar a recolha dos resíduos sólidos pelo concelho. Também poderia melhorar as medidas, que são discricionárias, na atribuição dos subsídios, porque está em causa o erário público, dinheiro que os contribuintes se viram forçados a descontar ou a pagar dos seus rendimentos.
b- Que aspetos positivos e negativos destaca no concelho de Lagoa?
J.R. - Relativamente aos aspetos positivos, é um concelho privilegiado, tendo de um lado o mar e do outro, o campo, onde se destaca uma população serena e paciente, enfrentando as suas dificuldades. No que respeita à parte negativa, o campo não é explorado e não há da parte da autarquia incentivos credíveis para que os seus proprietários se dediquem à agricultura. Em relação ao mar, temos vindo a perder atividades marítimas devido à continuação de políticas que levaram à sua destruição.
b- E de que forma poderá a autarquia incentivar a agricultura?
J.R. - É preciso incentivar os proprietários de terrenos agrícolas a ocupar e dinamizar esses espaços e ajudá-los a promover aquilo que ali é produzido, através de feiras. São necessários mais certames do género da Fatacil, embora mais simples, para escoar através de protocolos com grandes superfícies comerciais, por exemplo vinhos e citrinos, entre outros produtos agrícolas do concelho de Lagoa.
b- O que defende para o futuro da Fatacil?
J.R. – A Fatacil está bem nos moldes como funcionou na anterior edição, em Agosto de 2012, dessa vez apenas com um palco para espetáculos de animação, o que permitiu reduzir custos. Penso que não é necessário proceder a mais alterações.
b- Além dos aspetos já referidos, que outras questões mais o preocupam neste concelho?
J.R- O que mais me preocupa, e que é, afinal, o principal problema do concelho, é a atual taxa de desemprego, que neste momento já atinge entre 1.500 e 1.800 pessoas, além da perda do poder de compra existente no concelho e no Algarve. Muitas pessoas estão a viver com muita dificuldade por terem perdido o seu emprego e se não fosse a ajuda familiar a situação seria ainda muito mais complicada. Para colmatar este flagelo, terá de haver da parte da autarquia a promoção do investimento público no concelho e a dinamização de investimento empresarial. É isto que defendo e pelo qual lutarei.
b- E que investimentos públicos poderá a Câmara de Lagoa promover para enfrentar o desemprego?
J.R- Quando apontei para a necessidade de a câmara melhorar infraestruturas na rede de abastecimento de água, nomeadamente ao nível de tubagens, acho que tais obras poderiam ajudar a reduzir o número de desempregados no concelho. Por outro lado, se houvesse requalificação das escolas como um dos exemplos, substituição das telhas de amianto existentes e trabalhos de requalificação em equipamentos como espaços ajardinados e jardins de-infância, muita gente poderia ficar ocupada.
b- O que irá permitir ao concelho a construção da marina projetada em Ferragudo?
J.R. – Sinceramente, duvido que a marina de Ferragudo venha a ser uma realidade. Nem mesmo a longo prazo, apesar dos naturais benefícios em termos de dinamização económica que poderia permitir ao concelho de Lagoa.
b- Se for eleito presidente da câmara, o que mudará em concreto em Lagoa?
J.R- Farei uma gestão transparente para que os lagoenses conheçam a forma como o dinheiro, que é de todos nós, está a ser utilizado e possam acompanhar os projetos em desenvolvimento. “Uma política decente é uma política responsável com contas certas”, como diz Francisco Louçã, ex-coordenador nacional do Bloco de Esquerda.
Os lagoenses serão chamados a participar no desenvolvimento do concelho por intermédio dos orçamentos participativos em que uma percentagem do orçamento do município será afeto a projetos definidos pelos cidadãos de Lagoa. Outras melhorias se fariam, como já mencionei. Também melhoraria a segurança no concelho e tudo faria para que os seus direitos a outros serviços como os Correios, os Centros de Saúde fossem garantidos.
b- O que é necessário em termos de segurança? Há falta de militares da Guarda Nacional Republicana?
J.R. - Os militares da Guarda Nacional Republicana têm de estar mais visíveis nas ruas e sobretudo à noite. A crise está a contribuir para aumentar assaltos no concelho e as pessoas têm de se sentir mais seguras. Essa situação não acontece neste momento.
b- Como perspetiva o futuro da estação dos CTT´s em Ferragudo, cujo encerramento há muito tempo se fala?
J.R. - A estação dos CTT´s de Ferragudo vai mesmo fechar, apesar da contestação da Câmara, da Assembleia Municipal de Lagoa e da Assembleia de Freguesia. Será, estou certo disso, só uma questão de tempo para o Governo que pretende, como se sabe, privatizar os CTT. Tal situação só irá provocar transtornos à população de Ferragudo, sobretudo aos mais idosos para levantar as suas pensões de reforma, bem como aos turistas no Verão. A funcionar em instalações antigas, cuja renda não deve ser elevada, e apenas com um funcionário, não vejo onde haja grandes prejuízos para os CTT.
b- E se for eleito vereador da câmara, qual poderá ser o seu papel?
J.R. - Como vereador, irei sempre contribuir para uma melhor qualidade de vida dos lagoenses, apresentando também as minhas ideias e propostas. O executivo poderá ou não aceitá-las, mas tudo o que fizer será divulgado à população.
b- Em tempo de crise, quais são as suas prioridades para os próximos quatro anos?
J.R. - Como já tive a oportunidade de afirmar, desde o primeiro momento irei apoiar, com maior eficácia, os desempregados sem qualquer apoio financeiro. Depois, irei melhorar as infraestruturas existentes no concelho, em várias vertentes, que há muito tempo foram construídas, precisando urgentemente de manutenção.
b- Qual a principal obra com que pretende marcar o seu mandato?
J.R. - Para mim o exercício da política não é uma forma de glória, não é uma feira de vaidades. Assim, a principal obra será contribuir para que as pessoas se sintam satisfeitas por viveram no concelho de Lagoa. Para isso, para além das medidas mencionadas, apoiarei a construção de equipamentos sociais, nomeadamente de apoio a idosos, promoverei o arrendamento social e executarei obras de requalificação do concelho, pequenas obras de proximidade que muito contribuem para o bem-estar dos cidadãos. De uma forma clara assumo que tudo farei para que os lagoenses superem estes dias difíceis que atravessamos, podendo contar sempre com o apoio da autarquia.
Entrevista dada ao semanário O Barlavento